Lab. 1 #

No dia 08 de fevereiro iniciamos o processo de criação de "Corpos de Barro Uma Alice Pós-apocalíptica". Ainda devagar, até termos estrutura para "engatar de vez", realizamos o que chamei de Lab 1. Participaram deste laboratório os atores Rhaylander Herique, Felipe Viana e Fernando Tulher.

Inicialmente conversamos, Fernando e eu, sobre as possibilidades de posições, encaixes e apoios a serem experimentados com Rhay e Felipe. Fizemos uma lista e apresentamos a eles. Conversamos sobre os códigos entre nós e os cuidados que deveríamos ter.

E testamos algumas possibilidades de composição e de transição entre as formas. A figura associou prontamente a personagem da Rainha. Mas, na verdade, o meu desejo de ver a alteração de gênero em cena vem a todo momento. Há algo a se pensar sobre isto, que está na cultura cênica desde sempre e que gera, tanto, a poética. Esta figura hibridizada. Imagino flashes da caracterização de Fernando, como poderá ser. Carregado pelos dois "filhos". Estamos investindo na perspectiva destas figuras terem um envolvimento com a rainha que não se reduza a súditos ou cartas de baralho (que por sua vez atrelam a um imaginário em outra direção).

Testamos coisas no chão também. Deslocamentos do Fernando e integração entre corpos. Neste momento, houve um impasse. Foi preciso pontuar que uma integração real teria ali um "valor cênico" maior do que a composição de "poses" para a plateia. Rhay deitou no peito do Fernando e Felipe os abraçou. Foi lindo. Foi simples. Eles começaram a brincar com os pés um dos outros. A tocar e observar. Ali ouve uma integração. De corpos e de sujeitos curiosos e observadores de seus corpos.

Fernando aceitou e vamos investir nele como Rainha. Uma das Rainhas, porque, provavelmente, teremos outra e, provavelmente, será de Janaína, uma de nossas atrizes cegas.

Algo a se pensar também sobre a imagem de Fernando em pé. O valor cênico do que produzimos enquanto figura. Em seguida Rhay e Felipe interagiram sozinhos, utilizando o repertório de acrobacias. Está em pauta como compor com esta linguagem.

Próximos Labs...

Para o próximo Lab vamos ver os filmes, descrevendo-os, debatendo-os. Os dois filmes do Tim Burton. Em seguida, pretendo uma leitura conjunta do romance original. E outras leituras, de materiais sobre o Holocausto e as guerras atuais, da Síria e outras. Testemunhos, cartas, endereçamentos, de pessoas que viveram na Guerra. Não sei como misturaremos as referências ainda.

Será preciso um investimento no cenário pós-apocalíptico, talvez com barro e arame. Luz muito recortada e fumaça. Pensei em uma espécie de videoarte projetada em algum canto, com uma brincadeira com o barro: o pó, corpos se quebrando, se espedaçando. É literal, eu sei, mas estas estéticas contemporâneas, muitas vezes se valem exatamente da literalidade. Há algo para se pensar sobre.

Outros desejos para a cena de Corpos de Barro...

Uma figura apenas toda de vermelho.
Usar os violinos de Felipe e de Fernanda.
Fernanda como uma Alice (não sei se a única)
Ester como narradora - com sua performatividade em Libras, sozinha em cena.
Um coelho real atravessando a cena no começo (já temos a coelhinha de Beth).
Maurício como um ex-combatente - referência que se junta a um dos personagens-doidos, não sabemos ainda qual.
Maurício em par com Tainá, algo para experimentarmos - Tainá com sua dilatação.
Um Lab para Janaína compor corporalmente sua raínha com muito movimento - trabalho oposto ao que ela faz em Quando Acordar a Cidade.
Um Lab para Janaína e Fernanda, o encontro das duas, com os corpos em movimento o tempo todo também. Isto será novo e um desafio para nós.
Algum momento de intimidade maior entre Rhay, Fer e Felipe, ou a rainha e seus filhos, em um momento de "peso" no espetáculo. Não sei se eles dando banho nela, não sei se eles chorando no seu colo. Algo que desnude a sua intimidade.

Corpos de Barro será um espetáculo forte, para adultos. Nos desafiaremos a compor imagens de valor cênico para tematizar a pulsão de guerra, a pulsão de morte, não sem certo tom cômico e de absurdo.

Rejane Arruda.

Fotos do primeiro Lab
Imagens: Daniel Monjardim e Rejane Arruda.








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